O escravo

– E aquele lá, como veio parar aqui?

– Aquele ninguém sabe. Dizem que chegou antes de todo mundo aqui.

– O que é aquilo nas costas dele?

– Dizem que chegou com aquelas marcas em carne viva.

– Nunca vi nada assim.

– São chicotadas. Ou melhor, foram chicotadas… eram chicotadas… hoje em dia ninguém chega assim.

– Então ele chegou antes de todo mundo.

– Antes da gente, quis dizer, antes de nossos pais e avós também.

– Coitado.

– Vive assim, com a voz guardada.

– Vou lá falar com ele.

– Não faça isso. Ele só tem um olho.

– Como assim.

– Ele sofreu uma tempestade de lambadas com as mãos e os pés amarrados. Parece que as chicotadas além de ferir-lhe as costas acertaram um olho que ficou pendurado. O olho caiu com outra chicotada.

– Quem fez isso?

– Dizem que foi aquele branquelo ali.

– O quê? Aquele ao lado dele?

– Pois é.

– Mas…

– Pois é.

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