Devia ser

Eu sei que você não gosta de ler o que escrevo. Você prefere ler o que recomendam ou qualquer coisa que te faça rir.


Eu só escrevo na hora do almoço, quando largo as ferramentas aqui na fábrica. Os outros operários almoçam e conversam. Eu escrevo enquanto almoço. A fábrica passou a demitir muita gente. Eu já me imaginei ganhando o nobel de literatura depois de ser demitido. Imagino-me em viagens pela Europa para conceder entrevistas em vários países com tradutores locais contratados pela editora. Por ora, parece que não corro risco de ser demitido porque chego na hora, saio na hora e não falo mal do chefe. A fábrica não pode demitir todo mundo.


Eu queria escrever as coisas que você gosta de ler, as coisas que te faz sorrir. Você nunca pede pra ler o que escrevo. Talvez não goste de pensar que eu esteja ali do outro lado das palavras.


Eu sei ser um pedaço disso e daquilo, sei ser um reflexo do pensamento dos outros. Sou o que não aprendi na infância.


Eu não sei escrever comédias, eu não sei fazer você rir. Sei ser um pedaço de você. Posso ser o que você sonha pra você.


Na fábrica sou um pedaço do chefe, um pedaço da fábrica e um pedaço de mim na hora do almoço. Eu escrevo para me ouvir. Todo mundo me acha dócil, mas eu queria voltar pra casa num horário esquisito, com cheiro de urina, bafo de bebida e cigarro, voltar com cheiro de vingança, com odor alcalino entre as pernas.


Hoje quando você chegar vai sentir um alívio, porque joguei fora tudo que escrevi, destruí aqueles manuscritos que você disse que leria noutra hora mas com o passar dos anos pediu para eu esvaziar a gaveta. Reclamou daquela estante que comprei para arquivar meus cadernos. Hoje vejo que eu nunca pertenci ao quarto, à cama, às conversas, nem a qualquer sonho seu.


Eu já me acostumei a me deitar e não imaginar novas histórias, novos poemas. Durmo entre rimas disfarçadas dentro dos teus parênteses. Acordo com o silêncio das horas que não acumulam nenhum futuro pra mim.


A gaveta já está vazia, a estante está vazia e sei que você não vai se importar com isso. Dormirá como se nada tivesse acontecido.


Foi horrível sentir o cheiro dos meus papéis na fogueira que acendi no quintal. Depois o vento varreu os restos carbonizados.


Quando você chegar, sabe que te darei “boa noite”. Você vai fingir que não viu a estante vazia e quando me disser que notou, isso será no próximo sábado, talvez, mostrará sua felicidade daquele teu jeito de fazer perguntas desconexas, puxando assuntos aleatórios sem querer saber onde foi parar aquela pilha de papéis com as histórias e poesias que escrevi desde a adolescência. Você sabe, e eu também sei, que você vai fumar na varanda, vai perceber um vestígio de fogueira no quintal, vai concluir que fiz o que devia ter feito desde quando nos casamos, vai dar um sorriso preso no canto da boca, vai soltar a fumaça do cigarro com a boca apontada pro céu e um olhar de missão cumprida, de desejo realizado. Depois entrará em casa e me perguntará se não tem nada pra ver na TV.


Você me conhece melhor do que eu mesmo. Sabe que vou ligar a TV, você vai se deitar no meu colo e eu vou fazer carinho nos teus cabelos enquanto olho o silêncio da porta e da janela, penso nos personagens derretidos no fogo e espero a repetição de mais uma noite mergulhada na escuridão.

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