A literatura além da literatura

No dia 2 de abril de 2020, o escritor Jéferson Assumção fez uma “live” no Instagram da QUADRO AMARELO. Jéferson falou por uma hora e meia. Ele não sabia, mas eu estava digitando o que ele falava. Então, digitei os pontos-chaves do conteúdo daquela “live”, intitulada “A literatura além da literatura”. Quando a “live” acabou, imediatamente eu enviei o texto a ele, que prontamente publicou em seu facebook para o público que não conseguiu estar naquela “live”. Passo a palavra a Jéferson Assumção.

O específico na literatura é “o como” uma narrativa é feita.

A escrita é uma composição feita no tempo.

Tempo enquanto estrutura sequencial.

A Literatura tem aplicação na Comunicação, no Marketing, na Política, na História (saber como a história de um país é contada), na Educação e em muitas outras áreas. A relação entre o Direito e a Literatura é muito importante, vai além da perspectiva instrumental.

A literatura busca um caráter único para concretizar abstrações.

A Literatura atua na descompactação de um conhecimento compacto (estereótipo). Um conhecimento compacto não dá conta da diversidade. O Brasil do Acre é diferente do Brasil do Rio Grande do Sul. A literatura funciona na “descompactação”, à medida em que não trabalha com esteriótipos, com blocos maciços de ideias gerais, ou com a repetição de lugares comuns.

A Literatura deve levar em conta a identidade e a diversidade.

Muita gente pensa em Escrita Criativa numa perspectiva industrial, isto é, produzir livros para um mercado. É preferível se pensar no conceito básico de diversidade cultural, mais do que numa identidade achatadora, se pensar em diversidade como fundamento da Escrita Criativa, para sair dos esteriótipos. Isso é fundamental quando pensamos em personagens. A Escrita Criativa quer diminuir o “mundo compacto”, a desmassificação, em favor de uma escrita mais leve (Ítalo Calvino), de modo a contribuir para narrativas mais interessantes sobre o mundo. Ou seja, sair da ideia de indústria cultural tradicional, aquela que “vende” um conjunto de técnicas, embora importantes, não suficientes para as possibilidades de diferentes expressões.

A escrita criativa em três dimensões:

  • a técnica
  • a criatividade
  • a expressão simbólica (a nossa expressão).

Por mais que o mundo esteja lotado de livros, ainda não há nele a sua expressão. Esse mundo não tem aquilo que é original do nosso olhar, nossa visão de mundo, portanto, escrevamos nossos textos, publiquemos nossos livros para mostrar o que temos a dizer ao mundo.

Educação sem cultura é ensino.

Em vez de se pensar a sala de aula apenas como espaço de teoria literária, que seja um espaço para a expressão e descobertas sobre como uma narrativa foi construída, como um personagem foi idealizado.

Muitas vezes a escola é apenas um lugar de ensino (passar procedimentos), e não de educação.

Escrita Criativa como parte da Economia Criativa

Pensemos a Escrita Criativa como parte da Economia Criativa. Há todo um sistema literário (autor, obra, público), sendo impactado por transformações no mundo de hoje. Isso nos desafia a pensar na escrita como parte da Economia Criativa.

As universidades que têm trabalhado a questão da Economia Criativa, falam muito em design (“o design no espaço”, e não “o design no tempo”).

A questão do design no tempo precisa ser desenvolvida. Precisamos conversar com os escritores para sair daquela ideia do escritor apenas como um artista, isto é, apartado do sistema econômico. É preciso se pensar na dimensão estética, certamente, mas também na dimensão econômica.

Os escritores precisam se repensar. Isso não é uma diminuição de sua criatividade, ou de seu componente técnico expressivo. Estamos falando em se pensar numa literatura para além da literatura, pensá-la como elemento do desenvolvimento econômico e social, pois isso qualifica nosso pensamento narrativo político, para saber até que ponto estamos consumindo narrativas; qualifica a nossa educação, a nossa cultura, qualifica a diversidade. A Escrita Criativa precisa se conectar com todos esses elementos.

A gente não pode ficar nessa ideia meio fechada, nessa choradeira constante de achar que está tudo ruim, e que acabou o mundo da literatura. Na verdade, a gente tem que ampliar muito a nossa perspectiva da própria literatura.

Se agente pensar nos americanos, desde 1880 as universidades foram desenvolvendo seus cursos de Escrita Criativa. É claro que isso foi (e é) importante para o desenvolvimento da literatura americana, mas foi além, foi importante para o cinema, para o desenvolvimento do marketing e da publicidade. Não é por acaso que dominam diversas narrativas que o mundo conhece. Eles se deram conta da importância da literatura nas mais diversas áreas.

Recentemente, os americanos voltaram a defender o ensino da Escrita Criativa no Ensino Médio, depois do sufocamento da criação literária.

A Escrita Criativa nos proporciona a leitura atenta, aquela feita para dar conta dos detalhes expressivos e das unidades de sensação em cada frase e parágrafos da narrativa.

A abstração é o grande salto do século XIX para o século XX.

Quando a cultura escrita se afasta da oralidade ela fica artificial, fica abstrata. Se ela é um ganho do ponto de vista lógico-formal, no entanto essa abstração pode trazer um certo pedantismo quando dá as costas para a oralidade.

Erros para serem evitados na escrita:

  • Sentimentalismo: é uma maneira de se chegar a um fim sem apresentar as causas. Pois em vez de oferecer uma ação dramática para transmitir uma sensação, o escritor descarrega no texto o seu próprio sentimentalismo. Em vez de mostrar o personagem, o escritor mostra a si próprio. Impõe seus sentimentos.
  • Maneirismo: um escritor não pode humilhar seus personagens nem seus leitores, com um derramamento de conhecimento em vez de um diálogo.

A literatura para além da literatura, significa ver sua importância nas outras áreas e não apenas nas áreas artísticas.

A literatura não sai ganhando se ficar num cantinho simplesmente estético, isto é, sem se organizar dentro de um sistema macro que ultrapassa os limites da estética e da arte.

(Um dos ouvintes lançou a questão “poesia x prosa”).

A prosa se nutre da poesia, a poesia se nutre da prosa, numa conexão.

A prosa pensa numa lógica.

A poesia pensa no meio, nos interstícios.

Para encerrar, estamos num momento fundamental para pensarmos na cultura digital. Estamos vivendo “a atualização” da história da literatura. Não podemos dar as costas para a cultura digital. Temos que fazer uma conexão muito boa. Talvez sejamos a geração que vai conectar o mundo dos livros impressos ao mundo do livro digital.

Leitura solidária e leitura solitária.

A leitura dos livros é uma leitura solitária, é uma leitura muito recente. O ser humano sempre leu de maneira solidária. Ao redor do fogo, fazia o conhecimento circular, isto é, era uma leitura compartilhada, uma leitura antes da escrita, uma leitura do mundo. Levou muito tempo para se ter a leitura solitária, essa que vivemos. Sim, ela é fundamental para longos encadeamentos lógicos e estéticos, e organizar o texto em linhas. Há uma linearidade. Temos uma forma mais interna, uma perspectiva solitária mais predominante. É uma leitura feita por um sujeito, digamos, a partir do mundo medieval, renascimento. Diferente disso é a leitura solidária, porque é circular, há troca de conhecimentos sobre a apreensão do mundo.

O que vemos hoje é a junção dessas leituras por meio da Internet. Na Internet se dá a leitura solitária e solidária, o conhecimento que alguém adquire e ao mesmo tempo o faz circular.

Nós não vamos substituir o livro impresso pelo livro digital, mas conectá-los. Isso é literatura para além da literatura.


Transcrição da “live” feita no Instagram por Jéferson Assumção, no dia 2 de abril de 2020, das 19h às 20:30h.

Jéferson Assumção

Escritor com mais de 20 livros publicados. Autor de obras de ficção, filosofia e política de livro e leitura, ministra Oficina de Escrita Criativa. Doutor em Filosofia pela Universidade de León (Espanha), com pós-doutorado em Literatura na Universidade de Brasília (UnB). Atuou por dez anos na política cultural, com ênfase na área de livro, leitura e literatura, nos níveis federal, estadual e municipal.

Conheça o Curso de Escrita Criativa da QUADRO AMARELO.

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