Meias palavras

 — Oi.

 — Oi.

 — Tudo bem?

 — Tudo bem.

 — Eu sou do tempo em que era feita à mão.

 — Eu fui feita nas fábricas da China.

 — E quando você descobriu sua existência?

 — Ah, eu fui crescendo, crescendo e vi que no início eu era apenas um novelo de linhas dentro de um cesto.

 — Eu não tive essa sorte. De repente eu estava dentro de um pacote juntamente com outras.

 — Lá na fábrica?

 — Primeiro o pacote estava na fábrica. Depois o pacote foi amarrado a outros pacotes e a quantidade de pacotes era a perder de vista.

 — Então eram muitos pacotes?

 — Infinitos. Todos dentro de um contêiner. Foi uma travessia longa.

 — E como você saiu do pacote?

 — Saí quando o contêiner chegou no Porto de Paranaguá. As vozes diziam que alguns pacotes iriam para São Paulo, outros para o Rio de Janeiro, outros para Porto Alegre. Eu fui para São Paulo e de lá a gente foi jogada dentro de um caminhão. Foi outra travessia até Brasília.

 — Você não conheceu seus genitores, então.

 — O que é isso? Genitores?

 — São as pessoas que cedem parte dos seus genes para criar alguém como eu. Meu pai se chamava algodão e minha mãe se chamava tinta.

 — Que interessante. Eu devo ter tido muitos genitores e muitas mães embaixo das lâmpadas fluorescentes da fábrica.

 — Quando eu nasci, eu era um novelo. Tinha dois gatos na casa onde eu vivia.

 — O que são gatos?

 — É um tipo de animal que gosta de brincar com novelos. Tem rabos, unhas, dentes afiados, sabem pular, têm sete vidas e gostam de fazer miáu.

 — Nunca vi um desses. Eu vim parar numa prateleira do Park Shopping. Uma moça gorda abriu a caixa. Eu fui pra dentro de um lugar escuro. Às vezes aquele lugar era aberto e entrava um facho de luz igual aquele lá da fábrica. E tinha um ar frio ao redor. Eu me acostumei a ficar no escuro e aquecida.

 — E como foi que você veio parar aqui?

 — Eu já ia te fazer essa pergunta. Um dia, a gorda abriu a gaveta onde eu estava. Uma jovem muito inteligente, de óculos, me pegou em suas mãos. Fui examinada. Ela me esticou pra cá e pra lá, depois me cheirou e pronto. Tirou um pedaço de plástico da bolsa, a gorda passou aquele plástico numa coisa de metal cheia de números, a moça inteligente apertou alguns números e foi assim que fui morar nos pés dela. E você?

 — Minha história começou com aqueles gatinhos, o Anakin e o Jazz. Eles disputavam quem ficava comigo por mais tempo. Eu sentia cócegas quando me pegavam pelas unhas. Um dia, a dona do novelo me tirou do cesto onde eu morava. Um cesto ao lado do sofá. Eu gostava daquele cesto, mas a vida é assim. A gente tem que sair do ninho, virar outra coisa na vida. Ela sabe fazer tapeçaria, tricô, casacos e, em vez de unhas, agulhas me transformaram no que eu sou. Quando fiquei pronta, a moça…espera, nem falei direito dela. Ela também era inteligente e bonita. Mas não vou falar muito dela porque isso dá um livro. Um livro lindo. Basta dizer que eu moro nos pés dela quando ela vem aqui pra rede, onde estamos. E foi um prazer conhecer você.

 — E os gatos?

 — Eles ficaram tristes quando eu saí do ninho, mas depois descobriram alguns lagartos que passam por debaixo da porta. Não querem outra vida. Parece que botaram livros no cesto.

 — E seus genitores?

 — Bem, os genes deles estão aqui: algodão e cores preta e branca. Eu gosto de ser listrada. E tenho uma companhia divertida: a cabeça felpuda de um ursinho costurada em mim.

 — Eu também sou feliz com minhas cores preta e branca em forma de bolinhas. Temos as mesmas cores. Por isso a gente se deu tão bem. Acho que nossas donas se deram bem por nossa causa.

 — Elas gostam de ficar juntas na rede pra conversar.

 — Então você também notou que hoje nós fomos o assunto delas?

 — Claro que notei. Por isso puxei assunto com você.

2 comentários em “Meias palavras

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