Reconhecimento: palavra mágica

Hoje, dia 14 de abril de 2020, quebrei uma regra de ouro na minha rotina. Sempre fui disciplinado na escola e no trabalho, e desde sempre cumpro regras que eu mesmo invento pra mim. Uma regra é não pegar no celular de manhã. Ele fica ligado. Se alguém ligar eu atendo. Jamais desligo meu celular e tenho apenas um motivo pra fazer isso: meus pais estão vivos. Minha mãe tem 77 anos, meu pai 82. Não quero perder nenhuma chamada deles.

Depois do almoço eu olho o celular. Começo pelas mensagens da família, depois olho as mensagens dos amigos, depois dos músicos, depois dos grupos (faço parte de… peraí, deixa eu ver), ok, são 5 grupos.

  • Grupo da Escola de Especialistas da Aeronáutica: aqui somos 154 ex-alunos da turma de 1983. São 37 anos de amizade. Éramos 401. Alguns não são adeptos às redes sociais, outros não sabemos o paradeiro, outros já brilham no céu.
  • Grupo da família
  • Grupo dos moradores do condomínio onde moro
  • Grupo dos professores do curso de pós-graduação do qual faço parte
  • Grupo de músicos

Como eu dizia, hoje quebrei a regra. Olhei o celular de manhã. Era de um amigo, um engenheiro autor de dez livros com mais de 45 mil cópias vendidas. Vive em Camboriú, Santa Catarina e trabalha muito. Viaja para dar cursos e palestras para profissionais e estudantes de Engenharia e Arquitetura em todo o Brasil, totalizando quase 750 apresentações e a participação de mais de 20.000 profissionais em mais de 175 cidades de TODOS os estados brasileiros, além de três cidades em Portugal (Lisboa, Coimbra e Porto).

Olhei a mensagem dele no WhatsApp. Tinha um link. Eu cliquei e pronto: um texto publicado hoje no site dele: http://www.eniopadilha.com.br, na seção “Notas autobiográficas. Um texto que tem, a meu ver, algumas palavras-chaves: amizade; reconhecimento.

O título do texto em letras capitais: “EU TENHO OS MELHORES AMIGOS DO MUNDO”.

O texto está dividido em três partes:

1- ele fala do meu trabalho de músico, mostra uma composição minha onde o leitor pode clicar no play, e também deixa um link para conhecerem o meu site.

2 – ele fala sobre como nos conhecemos, tece elogios a meu respeito e diz que nossa amizade já dura 12 anos.

3- ele apresenta o meu currículo acadêmico.

Bom, a primeira palavra-chave ficou fácil de deduzir: amizade. Isso é algo muito importante na nossa vida. O texto dele reforça esta importância, além de reforçar nossa amizade. Ele mora no sul, eu moro em Brasília. Muito obrigado, meu amigo Ênio Padilha.

A segunda palavra-chave é: reconhecimento. Bem, isso está evidente no texto quando ele dá seu reconhecimento ao meu trabalho como músico, reconhece o valor de nossa amizade e reconhece a importância de um currículo. Muito obrigado, engenheiro, escritor, palestrante e professor Ênio Padilha.

Certa vez, um médico psiquiatra me falou uma coisa sobre a palavra “reconhecimento”.

Eu o conheci quando ele foi diretor do Centro de Medicina Aeroespacial, no Rio de Janeiro. Eu já trabalhava lá quando ele veio assumir a Direção. Em menos de um mês o assessor dele veio até minha seção. Eu trabalhava numa cabine acústica com três médicos otorrinolaringologistas. Eu era responsável por fazer exames de audição em pilotos da VARIG, TRANSBRASIL, VASP, TAM (à época, uma pequena empresa do interior de São Paulo, Marília). Fazia exames de audição em pilotos militares de aviões de carga, helicópteros, caças, tudo realizado dentro de uma cabine acústica, à prova de som. Eu entregava um par de headphones, o exame era individual, tinha fila na sala de espera, minha rotina começava às 7h até 13h. No período da tarde eu ia pra faculdade de música e quando me formei fui trabalhar como pianista numa academia de ballet. Não era todas as tardes. Então, em outras tardes em estava ensaiando com algumas bandas. Eu era bastante requisitado porque lia partitura muito bem (ainda leio, ok rsrsrsrrs) e tinha doze teclados diferentes, ou seja, eu podia atender às necessidades de bandas de rock, pagode, samba, soul, jazz, blues e bandas com projetos de música autoral. Ou seja, eu tinha as manhãs ocupadas, as tardes ocupadas e as noites ocupadas, porque à noite eu sempre estava tocando em algum lugar com alguma banda, ou como pianista de algum hotel ou restaurante. Eu vivia no Rio de Janeiro. Isto é, tocava de segunda à segunda.

Eu adorava o meu trabalho no Centro de Medicina Aeroespacial, adorava a faculdade e os ensaios com as bandas, e adorava tocar à noite. Ou seja, eu estava sempre feliz. Graças à música, conheci todas as capitais brasileiras e muitas cidades do interior; viajei em turnês para muitos países (Estados Unidos, França, Alemanha, Grécia, Japão, Chipre, Espanha, além da América do Sul e África).

Outra coisa: o pessoal lá do Centro de Medicina Aeroespacial sabia que eu era músico. Eles me viram no Fantástico, na Ana Maria Braga, na Xuxa, na Angélica, no Raul Gil e no Programa do Jô Soares cuja entrevista terminou com uma composição minha chamada “Caçada”, com o grupo do qual fazia parte, o “Metabolar”. O pessoal também via meu nome nos encartes dos vinis e CDs, ora como pianista ou tecladista ora como arranjador. Gravei muitos discos e estava nos palcos com muitos artistas: Claudinha Telles, Golden Boys, Elymar Santos, Jorge Benjor, Jorge Aragão, Dudu Nobre, Razão Brasileira, Lucinha Lins, Claudinho Lins, Mièle, Eduardo Dusek, e era o pianista oficial da Rio Jazz Orchestra, do maestro Marcos Spilmann. Fiz show de piano e voz com a cantora Elza Soares. Conclusão: eu era famoso lá no Centro de Medicina Aeroespacial. Foi assim que o assessor do diretor entrou lá na cabine acústica me dizendo que o diretor queria me conhecer.

— Dá licença.

— Então você é o pianista?

— Sim senhor.

O diretor era um coronel, além de médico psiquiatra: José Roberto Gabriel.

— Sente-se, por favor.

— Sim senhor.

— Então você toca piano?

— Sim senhor.

Eu era um jovem sargento e nunca tinha sido chamado por um coronel que quisesse falar comigo. Mas a música faz isso com a gente. Ela aproxima as pessoas.

— Quanto ganha um músico?

— Eu ganho mais do que meu salário de sargento.

— Quanto?

— Eu ganho mais do que o salário de um coronel.

Aí ele arregalou o olho. Tinha um bigode pendurado na boca dele como se fosse piaçava de vassoura. Um bigode grisalho, com certeza. O bigode se mexeu pra cá e pra lá quando eu disse que ganhava mais do que um coronel. Foi assim que nossa amizade começou. A palavra-chave, você se lembra? Reconhecimento. Ele sabia que sobreviver como músico não era tarefa fácil. Ademais, sabia que sobreviver com o salário de um sargento não era tarefa fácil também. Todavia, no meu caso era diferente. Eu nunca abria o meu contra-cheque. Se você me dissesse uma coisa dessas, eu não acreditaria. Como assim, não abrir o contra-cheque? Bem, eu tinha certeza que o salário de sargento caía na conta bancária. Os contra-cheques eu deixava numa gaveta. Foram anos ali, lacrados. Depois que eu me casei a coisa mudou. Eu continuei sem abrir os contra-cheques, mas minha esposa abria. Às vezes ela me perguntava “que desconto é esse aqui”, eu olhava e dizia “isso aqui eu to pagando a minha aposentadoria”, daí ela perguntava “e esse desconto aqui”, eu dizia “deve ser do dentista que eu usei no mês passado”. Ela não fazia por maldade. Ela é empresária, paga muitos impostos, sabe quanto vale cada centavo de uma hora de trabalho. Ela só estava aplicando a lógica empresarial ali no meu contra-cheque de sargento da aeronáutica. Volta e meia ela vinha com outro contra-cheque aberto. Eu disse que não os abria desde que o mundo é mundo, ou seja, desde que fiquei independente e passei a comprar o meu próprio papel higiênico. Eu só lhe disse “pode abrir, mas isso não muda nada, a tesouraria da aeronáutica é um relógio suíço, o salário cai na conta e tudo certo como dois mais dois são quatro”. Um dia desses eu achei um contra-cheque fechado do ano de 1985. Tá lá numa caixa, todo amarelado.

To contando isso pra dizer que o dinheiro da música era “um bom dinheiro”, como diz minha mãe. Uma vez eu gravei cinco faixas num disco. Era um vinil de uma cantora chamada Claudete Ferraz. O produtor do disco era o Michael Sullivan. Só pra vocês saberem. O disco tinha lá suas doze ou treze faixas. Eu fui convidado para gravar apenas cinco. Saí do estúdio com um pacote de dinheiro na mão. Dinheiro vivo. Isso foi em 1990. Dali do estúdio eu fui direto com o pacote pra uma concessionária de automóveis. Entrei na loja e um vendedor veio em minha direção.

— Boa tarde, vim comprar um carro.

— Qual modelo?

Eu dei uma olhada de 360 graus naqueles carros que brilhavam e apontei meu dedo dizendo “aquele ali”.

Era um Santana, da Volkswagen. Cor grafite metálico, vidros verdes, elétricos, ar condicionado, bancos feitos pela NASA, pneus importados de outro planeta, teto solar, uma novidade pelo menos pra mim.

— E aí, vamos levar esse carro? — Disse-me o vendedor.

— Com certeza.

— Qual o seu banco? Podemos financiar em até…

Daí eu interrompi o moço. Cutuquei com o dedo indicador o pacote que eu trazia embaixo do braço. Aquele que recebi lá no estúdio pela gravação de cinco faixas num vinil. Ele só franziu as sobrancelhas e eu respondi balançando a cabeça como quem diz “é issoaê”. Caramba, eu me senti o mais carioca dos cariocas, um cara pronto pra tirar onda com aquele carrão aos 27 anos de idade, se é que você me entende.

Mas eu falava do bigode do coronel.

Depois que o bigode dele se aquietou embaixo do nariz, quando eu disse que ganhava mais que um coronel, ele deu um giro na cadeira de rodinhas e ficou de frente pra janela. O Centro de Medicina Aeroespacial ficava no segundo andar do Ministério da Aeronáutica. Eu virei o pescoço pra janela também. Tinha uma luz bonita lá fora. Daí ele falou que a mãe dele era professora de piano. Então eu achei que isso foi o motivo pra ele ter mandando me chamar. Afinal, tinha um sargento (eu) que era pianista como a mãe dele. Foi um papo agradável. Durou uns vinte minutos. Daí ele disse que eu podia voltar ao trabalho. Eu me levantei, pedi licença e me dirigi à porta. Quando abri a porta ele disse:

— Sargento!

— Sim senhor.

Ele apontou o indicador pra mim. Lembrei da minha avó quando eu errava uma conta da tabuada.

— Nunca abaixe a cabeça. Caminhe sempre com a cabeça erguida.

Depois de dois anos como diretor do CEMAL ele foi dirigir outras unidades da área de saúde da Força Aérea. Não tinha WhatsApp, nem Facebook, então a contato evaporou. O tempo passou e ele foi transferido para dirigir o Hospital das Forças Armadas, em Brasília. Era dezembro de 2000 quando ele me procurou por telefone (antigamente tinha lista telefônica) para ir trabalhar com ele em Brasília. Naquele tempo ele já era Brigadeiro, e eu um Suboficial.

Um dia, ele (médico psiquiatra) me chamou para caminhar com ele pelas dependências do hospital, pelas áreas internas e externas. Defronte uma praça ele me perguntou:

— Você sabe qual é a maior fome do ser humano?

— Não senhor.

— É a fome de reconhecimento.

E voltamos a caminhar. Fiquei com aquilo na cabeça.

De vez em quando eu me pergunto se presto o devido reconhecimento aos meus pais, aos meus amigos, meus filhos, meus ex-professores e à minha empregada doméstica. É assim que ganho solavancos e me mexo. Eu me cobro.

Hoje, ao ler o texto do meu amigo Ênio Padilha, dirigido a mim, eu fiquei muito feliz.

É tão bom ganhar o reconhecimento de alguém.

2 comentários em “Reconhecimento: palavra mágica

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