Saudade sensacional

Eu acordei com a luz do sol na janela. O mês de maio começou. Meu quintal faz parte de uma reserva ambiental. Além das árvores, há um riacho e com oito minutos de caminhada pelo riacho chega-se a uma cachoeira. Pequena, mas sonora, espumosa, revitalizante. A cerca de quinze quilômetros está o centro de Brasília.

Neste dia ensolarado o céu reverbera o azul do outono. As árvores, o riacho, os pássaros parecem o arranjo de uma beleza proposital. Daqui a pouco, as folhas começam a tombar, as árvores ganham outro aspecto e o fluxo da natureza segue em frente.

Eu despertei com a vidraça cintilante. Inspirei o ar e soube que seria um bom dia para uma caminhada. Eu já me via embutido na paisagem. Desci da cama, lavei o rosto e calculava a roupa que deveria usar.

Olhei-me no espelho, a cara lavada, o pijama azul e meus cabelos grisalhos. Por alguns instantes, vi traços de meu pai e de minha mãe. Cheguei mais perto e examinei meus olhos, a sobrancelha, o nariz, virei o rosto para um lado, depois para o outro. Uma voz saiu do espelho vinda de memórias. “Ele é louco”, lembrei de ter ouvido isso de um de meus alunos que dizia a outro para ter cuidado com o que fosse me perguntar nas aulas. Acho que os alunos desconfiavam de mim. Uma vez, um deles consultava o Google para cada resposta que eu dava. Queria conferir se eu não estava inventando tudo aquilo. A turma se sentia à vontade, inclusive para desviar do assunto da aula. “Beethoven nasceu surdo”?, me perguntavam. A resposta era não. Eu aproveitava e dizia que nascera em 1770 e morrera em 1827. Eu carrego muitas datas na cabeça. Eu complementava a resposta dizendo “Beethoven nasceu clássico e morreu romântico”. A turma era formada por arquitetos, engenheiros, designers e o assunto da aula era a história da iluminação artificial, tema do meu doutorado. Mas era assim. Sabiam que eu era pianista e gostavam das digressões na área da música e das artes. Perguntavam por que a Monalisa era uma quadro famoso, por que Thomas Edison ganhou o crédito como inventor da lâmpada em vez do verdadeiro inventor, o químico inglês Humphry Davy, depois voltavam para o assunto da Monalisa e pediam para eu contar quem a roubou e como ela foi devolvida com suas mais de cinco mil rachaduras. Minhas respostas eram checadas por outro aluno no Google. Eu só soube quando alguém disse “professor, como a gente pode confiar nas suas respostas, com tantos nomes, tantas datas”? Foi quando o tal aluno levantou o braço e disse, eu conferi todas as respostas no Google. Ele não errou nenhuma. “O cara é louco”.

Eu saí da frente do espelho e fui tomar meu café sem tirar o pijama. Eram sete horas e vinte minutos. Enquanto a fumaça do café apitava na cafeteira, eu abri meu bloco de anotações e anotei uma frase “estou com uma saudade sensacional”. Sentei-me para tomar o café e dei uma olhada naquela frase. Era isso mesmo. Eu estava com um sentimento de saudade. E me perguntei se alguém estaria sentindo saudade de mim naquele momento.

Preferi fazer uma digressão e olhar as notícias no celular. “Suicídio dispara em meio à quarentena contra coronavírus”, era a manchete da Revista Rolling Stone, publicada ontem, 1º de maio de 2020, às 15h56m. Dizia “o índice de pessoas que se matam cresceu 32% durante a quarentena”. E que o número maior de suicidas era profissionais da saúde. “Nos EUA, duas enfermeiras se suicidaram no mesmo dia”. Seria uma espécie de “Transtorno Pós-Traumático”, dizia a matéria.

Coloquei mais uma dose de café na xícara. Por acaso uma xícara de porcelana da cor do meu pijama, azulada com uma pequena lasca na beira, tão imperceptível que às vezes me esqueço que um dia quase a quebrei enquanto a lavava. Eu não joguei fora porque é um dos objetos mais antigos que tenho. Foi da minha mãe. Ela me deu quando passei a tomar café aos 35 anos de idade. Então essa xícara sobreviveu a muitas mudanças e está há mais de vinte anos comigo. É pequena, cabe 50 ml de café. Dei um gole e me lembrei que ultimamente dedico meu tempo para ler as obras de escritores que se suicidaram: Sylvia Plath, Virginia Woolf, Horacio Quiroga, Ernest Hemingway.

Em 14 de março de 2019, uma médica psiquiatra me convidou para dar uma palestra sobre “A tristeza na música e na literatura”. A palestra aconteceu num auditório e a público eram pessoas que tinham perdido familiares e amigos pelo suicídio.

Um estudo feito pela Mantfort University, na Inglaterra, mostrou que ouvir músicas tristes, melancólicas, ajuda a lidar com a dor. Ao ouvir essas canções, emoções tristes são evocadas e nos traz um sentimento de consolação. A Dra. Annemieke Van den Tol realizou dois estudos separados envolvendo cerca de 450 pessoas. Nelas foram analisados os hábitos de quem procura refúgio de uma série de circunstâncias emocionais na música. A equipe descobriu que durante um momento de crise, letras melancólicas ajudaram os entrevistados a seguir em frente mais rápido do que aqueles que preferiram canções alegres.

Annemiake explicou que “a tristeza, muitas vezes, envolve a perda emocional, um problema que não pode ser resolvido ou revertido. A única maneira de seguir em frente e se sentir melhor é aceitar a situação. As pessoas foram capazes de seguir em frente ao ouvir músicas tristes, mas não tanto ao ouvir canções alegres”.

A maioria dos entrevistados concordou com a afirmação de que a música triste serve de consolo. Muitos também afirmaram que letras deprimidas os ajudaram a lidar com uma situação negativa, com a dor e a chorar. Os dados mostraram que o envolvimento emocional com composições melancólicas os amparou para a aceitação da perda. A conexão com essas emoções na música transformam sentimentos negativos em algo mais calmo, permitindo-lhes seguir em frente.

Coloquei outra dose de café. Eu queria saber se meu sentimento era saudade ou tristeza.

Era as duas coisas. Eu queria enfrentar aquela saudade. Olhei meu bloco de anotações: “estou com uma saudade sensacional”.

Desisti de fazer minha caminhada nesta linda manhã deste sábado, 2 de maio de 2020. Terminei meu café e fui tirar o pijama. Escolhi uma bermuda bonita, uma camiseta bonita e fui até o piano. Eu queria tocar uma música que pudesse chegar à pessoa que me causou essa saudade. Agora eu estava mais tranquilo. Eu sabia o motivo da saudade e sabia o que fazer para aceitá-la.

Peguei a partitura da Quinta sinfonia de Mahler. Escolhi o quarto movimento, o Adagietto. E toquei para dizer com a música o que eu estava sentindo. Terminei e toquei outra vez. E toquei pela terceira vez, e decidi gravá-la para dizer a alguém o quanto sinto sua falta, o quanto queria dizer sem palavras o que a música diz por si só.

Daqui a pouco o sol vai embora. As árvores ficarão guardadas na escuridão do quintal. Minha saudade, no travesseiro.

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