Canção das horas

No livro “A música do homem”, de Yehudi Menuhin e Curtis Davis, há uma frase: “a música é um veneno de efeito secreto”.

Mas a música é feita por alguém. Compositores, arranjadores, instrumentistas e cantores transportam a música de um lugar ao outro, de uma época à outra, de uma alma à outra.

Certa vez, nos anos 90, quando eu morava no Rio de Janeiro, recebi um telefonema. A voz do outro lado era de uma mulher. Era a compositora e cantora gaúcha Maria Rita Stumpf. Eu não a conhecia. Ela disse que tinha um show agendado no “Mistura Fina”, e meu nome foi indicado para fazer parte de sua banda. No dia seguinte fui até Laranjeiras (onde ela residia) e peguei com o porteiro o LP “Brasileira” (1988). Voltei pra casa, escutei e dias depois conversávamos pessoalmente para falar do trabalho e agendar os ensaios.

Chegou o dia do show. Casa lotada, aplausos. No repertório as composições dela e, no meu caso, um “veneno secreto” dentro de mim.

Eu cresci como aluno de conservatório de piano erudito. Depois entrei na faculdade (1986) e durante esse período passei a trabalhar com bandas em cujo repertório tinha rock, blues, jazz, MPB, mas nada parecido com o trabalho da Maria.

Uma vez ela me disse “você é o único que me chama assim, Maria”. Eu não sei o motivo. Todos a chamavam pelo nome duplo Maria Rita.

Durante os ensaios recebi as primeiras doses daquele “veneno secreto”, uma espécie de sentimento único, um sentimento de privilégio por estar ali, ouvindo e tocando aquele tipo de música, uma música única. Não serei justo ao descrever o que a música da Maria provocava em mim, porque as palavras são insuficientes.

As pessoas ouvem música e comentam “o rock”, “o jazz”, “o samba”, “a música clássica”, etc. Mas eu estava ali diante de algo muito novo para mim, as composições dela. Algo um tanto quanto original, único (repito) e arrebatador. Não dava tempo de racionalizar para classificar sua música como se tivesse endereço pré-fixado numa prateleira de loja. Não. Cada música era uma dose. Cada música era um novo destino emocional. Cada música era um convite a frequentar outros territórios.

Como se não bastasse a força daquela música invencível, o público (e eu estava ali no teclado me comportando como se fizesse parte do público) podia ver com os próprios olhos sua roupa branca, seus pés descalços, seus colares, seus olhos maquiados, seus cabelos loiros e soltos como uma fogueira. E, claro, a sua voz.

Como eu disse, não consigo ser justo em qualquer tentativa para descrever sua música e sua presença em cena. É preferível eu dizer o que senti quando estreamos o show, quando fizemos a introdução da primeira música e ela lançou sua voz como se fosse uma lâmina afiada que abre fendas no ouvido, na história, na experiência musical que eu tinha ali, fendas na alma. E ela estava ali à minha frente e sua música penetrante se instalou dentro de mim.

Todos os trabalhos que fiz com artistas conhecidos ou não tinham sua qualidade musical, muitos até inquestionáveis. Mas ter sido tecladista e arranjador da “Maria Rita Stumpf” (gravamos o CD “Mapa das nuvens”, com convidados como Danilo Caymmi, o grupo Uakti), foi uma experiência com aquele “veneno secreto” da música.

Eu sou do Acre (mas cresci no Rio de Janeiro). A Maria é gaúcha e foi viver no Rio de Janeiro. Como disse, nos conhecemos porque alguém me indicou para fazer parte da banda dela, nos anos 90. O que estou tentando dizer é que depois de conhecer o trabalho dela, eu me via num barco diferente, navegando por oceanos diferentes sob o céu de Atlântida, o céu da América, o céu da África, o céu de Atenas, o céu infinito.

Os iluministas do século XVIII queriam fazer a distinção entre a “arte bela” e a “arte sublime”. Para eles, o belo é finito e o sublime é infinito.

Tantos anos passados desde o primeiro contato com a Maria e sua música sublime navega dentro de mim. Sua voz de lâmina abre fendas para que o infinito possa existir.

Em dezembro do ano 2000 eu fui morar em Brasília. Nunca mais a vi.

Em 2015, eu estava morando em Madri e ela estava lá para tratar de assuntos com diretores artísticos de teatros da cidade. Graças à Internet, a gente reencontra as pessoas. Nós nos reencontramos e durante a conversa eu disse que tinha um show agendado em Munique, Alemanha. Um trabalho de piano solo para mostrar as músicas características das cinco regiões brasileiras. Contei isso pra Maria. Ela ficou muito entusiasmada. Resultado. Em vez de piano solo o show foi em Duo. Ela selecionou músicas para cantar e nossas fotos estavam nos jornais de Munique.

Nem tudo são flores no mundo da arte ou no mundo das relações humanas. Por um motivo que certamente é fútil, comparado ao valor da música, ela e eu nos desentendemos. Um desentendimento de natureza administrativa. Começamos a pensar em fazer outros shows. Ela pensava de um jeito, e eu de outro quanto à execução da ideia. Além disso, a gente fica mais teimoso quando envelhece. Eu já não tinha vinte e poucos anos, ela também não. Mas nesse desentendimento sem culpados, eu me inclino para pedir perdão.

Perdão, Maria.

Sua música e você faz parte da minha história musical e pessoal.

Não sei se o destino vai nos unir outra vez, para levar músicas a outros lugares e outras pessoas. Mas o infinito, o sublime e o veneno secreto que o seu trabalho injetou em mim, isso não depende do destino, nem de mim. Sua voz e sua música viverá comigo enquanto eu existir.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.