Capítulo 1 – Helena

Uma coisa eu tenho certeza: metade das coisas é realidade, outra metade é ilusão.

Eu aprendi numa oficina literária que todo escritor só é livre para escrever a primeira frase. Tudo o que vier depois dependerá dessa primeira frase. Eu não sei até onde isso é verdade ou ilusão para quem escreve um romance, um conto, uma crônica.

Eu já li “Cem anos de solidão” duas vezes. Na primeira vez foi difícil acompanhar a história com aqueles nomes repetidos dentro de uma mesma família. Na segunda vez, anos depois, li em três dias e dei conta de entender a história sem confundir os personagens com os mesmos sobrenomes.

Eu tenho uma mania desde criança. Aliás, hoje estou com 35 anos, sou solteira, não tive filhos e vivo sozinha em meu apartamento em Brasília, no Sudoeste. Sobre a minha mania, descobri o nome científico. Eu sofro de aritmomania. É uma forte necessidade de contar minhas ações ou os objetos em meu redor. Quando eu era criança eu contava a quantidade de pessoas dentro do ônibus, contava a quantidade de carros brancos na rua, contava a quantidade dos passos que eu dava até chegar no parquinho onde eu brincava. Na adolescência eu passei a contar as estrelas do céu que estavam enquadradas pela moldura da janela do meu quarto, contava a quantidade de beijos em um filme; eu gostava de converter a minha idade, em vez de anos, em minutos e segundos. Certa vez, já adulta, contei a quantidade de adjetivos que um político disse durante um discurso.

Minha primeira experiência com a aritmomania, até onde consigo me lembrar, foi aos sete anos de idade quando ouvia os gemidos de minha mãe no quarto dela. Ela não gemia todas as noites, mas quando gemia eu me afligia. Um dia eu lhe perguntei o que eram aqueles gemidos. Ela me contou uma história sobre uma índia velha do México que gemia quando tinha sonhos ruins e, no fim das contas, os sonhos viravam realidade. A índia gemia numa madrugada aqui noutra ali e no dia seguinte, com a tribo reunida, dizia que sonhou com uma tropa de cavalos descendo pelas montanhas e foi assim que sua tribo foi assassinada, e só pouparam as mulheres e as meninas. Minha mãe era brasileira, mas meus avós eram mexicanos assim como os bisavós e tataravós, todos índios com algumas histórias tristes de tribos assassinadas, cobras  com picadas venenosas, ausência de chuvas e outras desgraças anunciadas pelos gemidos de sonhos ruins e noites mal dormidas. Então, minha mãe disse: “eu sou filha de uma índia mexicana. Ontem tive um sonho ruim e você ouviu os meus gemidos”. Claro que eu perguntei sobre o seu sonho ruim. Ela disse que o sonho ruim era comigo, porque eu era uma péssima aluna no colégio e toda a cidade apontava o dedo para mim “lá vai aquela menina que só tira nota zero”, “olha lá aquela menina burra”. Eu franzi minhas sobrancelhas e prendi os dentes dentro da boca. Decidi que esse sonho ruim não ia se realizar. Foi assim que me tornei a aluna nota dez do colégio.

Quando fiquei adolescente, entendi que aqueles gemidos da minha mãe não tinham nada a ver com sonhos ruins. E eu não gostava de imaginar qualquer cena de minha mãe com o namorado dela lá no quarto. Ou será que ela vivia sonhando em plena luz do sol às três da tarde? Eu preferia me distrair com algum livro de literatura e foi assim que comecei a contar a quantidade de palavras que um escritor usa para narrar uma cena.

A primeira frase de “Cem anos de solidão”, contém 26 palavras, 128 letras e três verbos: “Muitos anos depois, frente ao pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía recordaria aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”.

Esta frase me deixou obcecada por verbos. Verbos trazem a ideia de “ação”. Verbos são o mecanismo de uma cena de “ação”. Mas dos verbos que introduzem o romance “Cem anos de solidão”, apenas um, no meu entender, era de “ação”: o verbo “levar”. Os outros dois, “recordar” e “conhecer” eram verbos de pensamento. Uma coisa é agir, outra é pensar. Mas, ok. O professor da oficina literária insistiu durante uma aula inteira sobre a construção de cenas de ação, e que a gente prestasse muita atenção aos verbos. “Não usem verbos de pensamento”, ainda ouço o eco da voz do professor. “Acontece que o Gabriel García Márquez ganhou o Nobel de Literatura”, era o que eu gostaria de ter dito naquele momento ao professor. Mas, acho que minha aritmomania me deixou assim, silenciosa. 

A oficina literária aconteceu havia seis meses. Nesse período, nutri a ideia de escrever um romance. Não sabia sobre o quê. Minha rotina como designer de interiores não me dava o devido tempo para pensar num “plot” para um romance. Então o “plot” que espere, pensei. E decidi criar nomes de personagens antes de ter uma história: Cecile, Hugo, Nina, Alan, Catarina, etc. Eu quero que os nomes de meus personagens tenham a mesma quantidade de consoantes e vogais.

Vão dizer que escolhi esses nomes por causa do meu. Acontece que minha mãe era fã da mitologia grega e se me chamo Helena, deve ser por um bom motivo. Embora eu goste muito daquela Helena, prefiro outra personagem da mitologia grega. Aquela da teogonia de Hesíodo autor do poema mitológico em 1.022 versos hexâmetros escrito nos séculos VIII-VII a.C. No meu blog eu adoto o nome dela, a deusa dos segredos noturnos, a deusa que controla a vida e a morte de todos os homens e deuses. Agora vão dizer que sou megalômana. Pois que digam. Mas não serei eu a narradora do romance que ora preparo. Passarei a palavra a algum narrador, ou a alguns narradores. Minha história pode ser melhor contada por narradores mais experientes. Como eu disse, não tenho sequer um “plot”. Tudo que eu tenho é minha aritmomania, meu silêncio e meus diários desde a infância. Um bom narrador saberá o que fazer com este material.

Uma coisa eu tenho certeza: metade das coisas é realidade, outra metade é ilusão.

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