Noite crua

Fumaça.Vela derretida.Fome. Brasa entre minhas pernas.Fome que faz doer, fome de dois sons entre duas gargantas. A lua se derrete, o tempo se derrete, meus líquidos, ácidos ávidos, libertam-se dentro de mim. Vela e lua, claridade fugaz. Deixei o portão aberto. Meu corpo descoberto. Sou teu alvo, traz tua flecha. Mas não aquela dos cupidos, […]

Com licença

É um prazer, uma comemoração dos neurônios, quando me dou conta de uma coisa. É como se tivesse chegado a minha vez de dar um flagrante nas coisas da vida que, certamente, pessoas mais atentas se deram conta antes. Quando ganhei um trenzinho a pilha no Natal de 1968 (eu tinha cinco anos), eu queria […]

Devia ser

Eu sei que você não gosta de ler o que escrevo. Você prefere ler o que recomendam ou qualquer coisa que te faça rir. Eu só escrevo na hora do almoço, quando largo as ferramentas aqui na fábrica. Os outros operários almoçam e conversam. Eu escrevo enquanto almoço. A fábrica passou a demitir muita gente. […]

Coisa de poeta

Um café pra acordarUm beijo pra acalmarUma lâmina pra afiarUma rima pra respirarMeus pés na terra do quintalMinha voz na garganta quietaMeu desejo era sexualNão é coisa de poetaVivo preso à janelaOlho a rua e seus mendigosAlguém bate à minha portaÉ sempre isso que imaginoA rima se perdeuNão é coisa de poeta

Sonho de criança

Contar histórias é uma maneira de manter as pessoas unidas. A televisão contou a história do homem pousando na lua. Eu vi na TV, em preto-e-branco. Meu vizinho Nestor deve ter visto. Depois daquilo, todos os meninos da minha idade, naquela época, sonharam em pisar na lua. Mas morar em Realengo, no Rio do Janeiro, […]

O escravo

– E aquele lá, como veio parar aqui? – Aquele ninguém sabe. Dizem que chegou antes de todo mundo aqui. – O que é aquilo nas costas dele? – Dizem que chegou com aquelas marcas em carne viva. – Nunca vi nada assim. – São chicotadas. Ou melhor, foram chicotadas… eram chicotadas… hoje em dia […]